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18 de Janeiro de 2019

ENTREVISTA DE ANTÓNIO GALRINHO, ESCRITOR E PINTOR, A VASCO LUÍS CURADO (2011) 

O escritor Vasco Luís Curado nasceu em 1971 e residiu em Setúbal precisamente até à data da conclusão desta entrevista, realizada em finais de 2011. Reside atualmente em Lisboa. Profissionalmente é psicólogo clínico, tendo exercido a sua atividade num hospital militar durante dez anos. Tem três livros editados: “A casa da loucura”, 1991; “O senhor ambíguo”, 2001; “A vida verdadeira”, 2010.

A entrevista foi realizada através de perguntas e respostas trocadas via correio eletrónico.

1 – No momento em que fazemos esta entrevista, tens três obras literárias editadas. Como caraterizas o teu percurso de escritor tendo como base apenas essas obras?

VLC – Houve uma evolução desde os contos talvez demasiado ingénuos de A Casa da Loucura (1999) e a novela, talvez excessivamente psicologizante, O Senhor Ambíguo (2001). O romance A Vida Verdadeira (2010) apareceu ao fim de quase dez anos de intervalo desde a anterior publicação. Envolvido agora com livros ainda inéditos, detecto um padrão: tenho tendência para me distanciar dos livros anteriores. Daí que a pergunta me cause algum embaraço: como caracterizo o meu percurso se ele é feito de quebras e rupturas e desejo de mudança? Talvez isso mesmo já seja uma caracterização. 

2 – O primeiro livro é sempre uma aventura muito especial. Que motivos te levaram a escrevê-lo?

VLC – O meu primeiro livro era uma colectânea de contos, de modo que limitei-me a acumulá-los até formar o que se possa chamar um volume. Foi natural pensar em formar com eles um livro e procurar publicá-lo. Como é preciso começar de alguma maneira, seria esta a maneira de começar. Também é natural que se comece, numa idade juvenil, com poemas ou histórias curtas, acabando a estreia literária por ser uma colectânea de poesia ou de contos.

3 – No que respeita ao ato de escrever, que aprendizagens aproveitaste do primeiro para o segundo livros e destes para o seguinte? Existem livros condutores entre essas obras?

VLC – O meu percurso, até agora, foi feito de rupturas e desejo de mudar de registo, tentar outra coisa. É possível que cada livro seja uma etapa intermédia, necessária, para fazer um caminho, da mesma forma que um náufrago num mar gelado pisa placas de gelo que se afundam à medida que ele salta para outras maiores ou mais sólidas, até soçobrar de vez ou salvar-se. Não há fios condutores entre esses livros. O primeiro usava o fantástico e o insólito; o segundo era um longo monólogo de um deprimido a tentar reconciliar-se com a vida; o terceiro era (ou é, reservemos para esse o tempo presente) uma exploração das ligações entre um destino individual, de um homem em trânsito para a vida adulta, e o destino colectivo da Humanidade, estando esta em trânsito desde a sobrevivência primitiva até à auto-consciência sofisticada, reunindo-se os dois destinos, o individual e o colectivo, na linguagem verbal: o homem quer ser escritor e a espécie humana tem nas palavras o património mais valioso.

4 – Quando revelas de forma aprofundada o caráter de um personagem, entras fundo no seu sistema nervoso e nota-se que te cativa fazer esse tipo de abordagem. Até que ponto a tua formação de psicólogo te conduz nesse processo?

VLC – A profissão de psicólogo é boa para ter acesso a material bruto: dramas familiares, sonhos, ambições, conflitos, traços de carácter, tipos de personalidade. A escuta psicológica recebe informação em primeira mão sobre histórias de vida e acontecimentos dramáticos interessantes. O paciente, ele próprio, faz uma auto-narrativa mais ou menos ficcionada, portanto já está praticamente a fazer literatura. O perigo da psicologia está em comprometer-se com um determinado quadro conceptual e estreitar as possibilidades de significado. Uma coisa é recolher material, outra é “psicologizá-lo”, ver tudo em função de teorias psicológicas prévias. A psicologia pode recolher matéria-prima, mas esta tem de ser transformada pela literatura. Assim, em literatura, é mais importante a psicologia dos escritores do que a psicologia dos psicólogos. Ninguém duvida que Balzac, Dickens ou Tolstói foram grandes psicólogos, no sentido em que souberam representar tipos humanos inesquecíveis, que nos fazem lembrar pessoas que conhecemos ou que passam a ser, eles próprios, tão reais como as pessoas que conhecemos. Mas para chegar aí não é preciso ser-se um psicólogo profissional, é preciso ser-se um escritor…  

5 – E da tua lidação com o universo militar recolheste algo de mais específico, em termos de matéria psicológica (se assim se pode dizer), que tenha enriquecido esse teu conhecimento do ser humano e que tenhas aproveitado naquilo que escreveste?

VLC – No passado, quando trabalhei num hospital militar, as pessoas que eu atendia, militares na sua maioria, traziam os mesmos dramas tragicómicos pessoais e familiares dos civis. Mais recentemente, enquanto psicólogo e psicoterapeuta, tenho contactado com antigos combatentes da guerra colonial. As histórias e testemunhos que recolhi foram usados num romance, ainda inédito, sobre a guerra colonial e a descolonização. No meu blogue, criei uma secção chamada “Declaração de guerra”, onde tenciono reproduzir, de modo ligeiramente ficcionado ou talvez não, alguns desses testemunhos. Estes homens, que combateram numa guerra condenada pelo curso da História (nos anos 70 do século XX já não havia futuro para o colonialismo), em defesa do mais duradouro Império colonial da História moderna, então caduco, não merecem ser esquecidos. Eles têm necessidade de narrar, de contar a sua versão, e eu tenho necessidade de os ouvir e de aprender com eles.

6 – Agora sobre ti, pessoa. Até que ponto existem passagens no teu “A Vida Verdadeira” que refletem as tuas vivências? Ou: até que ponto se trata de um livro autobiográfico?

VLC – Não faço distinções rígidas entre ficção e autobiografia. A visão que temos de nós próprios, mesmo quando queremos ser objectivos e factuais, é uma auto-ficção. Talvez se dê o caso que qualquer visão que tenhamos dos outros seja ainda auto-ficção, porque é com os nossos olhos, os nossos preconceitos, as nossas qualidades e defeitos pessoais, que os percepcionamos e interpretamos. Não é uma posição narcisista; é uma fatalidade física e mental. “A Vida Verdadeira” tem muitos aspectos directamente autobiográficos, episódios pessoais misturados com episódios observados noutras pessoas. O essencial, contudo, não são os episódios tomados em si próprios mas o tema do abandono da infância, do assumir uma autonomia em relação à família de origem, imposta pelo curso da vida. E, afinal, este é um tema comum à biografia de toda a gente.

7 – Como trabalhas e como conjugas dois campos complementares, como são o do real e o do imaginário?

VLC – Antigamente achava que o imaginário seria uma espécie de recreio, de intervalo entre doses obrigatórias e enfadonhas de real. Mas o imaginário é mais do que isso, é um meio de conhecimento e de relação com o mundo pelo menos tão legítimo e necessário como o real. Virtualmente inesgotável, amplia as fronteiras nunca definitivas do real. Acho que a literatura, como sector do imaginário, tem essa função de ampliar o conhecimento e a relação com o mundo e, logo, o próprio real.

8 – Que escritores te marcaram ou marcam mais enquanto referência ou inspiração para a tua escrita? Numa das respostas referiste os nomes de Balzac, Dickens e Tolstói. Estão estes incluídos nesse rol? Foi através da escrita de algum deles que decidiste tornar-te escritor?

VLC – Esses três nomes foram importantes a partir da minha adolescência. Tomei consciência das possibilidades evocativas da palavra e da atenção dada aos pormenores, seja dos espaços físicos, seja dos traços de uma personalidade, ao ler esses e outros autores. Mas a decisão de vir a ser escritor surgiu antes disso, por volta dos dez anos. A haver um autor que tivesse influenciado essa decisão, teria de ser aquele que eu lia fervorosamente na altura: Júlio Verne. Assim como há crianças que dizem que querem ser polícias depois de verem um polícia fardado, talvez eu tenha pensado que seria interessante criar mundos pela imaginação depois de ler As Vinte Mil Léguas Submarinas ou Miguel Strogoff. Não tenho a certeza disto, mas é uma dedução que faço.

9 – O romance é o género que mais te cativa e que pretendes continuar a trabalhar? A novela e o conto poderão ser retomados? Outros géneros, como a poesia e o teatro, fazem parte dos teus planos?

VLC – Prefiro o romance, que é o género mais abrangente em ficção e permite ensaiar registos muito versáteis. É também o mais fácil. No conto, é necessário manter a tensão sem deslizes, porque não há espaço para recuperar. Na novela, é preciso um equilíbrio para não parecer um romance falhado ou um conto inflacionado. Quanto à poesia, aquela que escrevi há muitos anos foi relegada para uma pasta arquivadora, numa estante num canto sem luz ao fundo de um corredor, o que é muito significativo. No entanto, no meu blogue tenho vindo a publicar uma série resgatada da pasta arquivadora e a que chamei “Poemas traduzidos do chinês”, num registo sóbrio e racional. O teatro não faz parte dos meus planos.

10 – Tens planos a médio-longo prazo para livros que pretendes escrever, assuntos que queres abordar e em relação aos quais as ideias tenham já começado a tomar forma, ainda que vagamente esboçadas? Ou esperas pacientemente que após cada projeto outro surja naturalmente para ocupar o espaço de criação que, entretanto, ficou livre?

VLC – Não estabeleço um plano rigoroso. Normalmente, acumulo notas para vários livros e decido avançar com aquele que reúne maior quantidade de material bruto, a pedir para ser trabalhado e burilado. Vários livros podem coexistir, à espera de revisão ou de publicação. Já aconteceu publicar um livro escrito depois de um outro que permaneceu inédito por mais algum tempo.

11 – Alguns escritores dizem que os personagens ganham vida própria e decidem o seu rumo. Sentes isso acontecer contigo?

VLC – A caneta que segue o seu rumo e as personagens que ganham vida própria (havendo até, segundo consta, as que se rebelam contra o seu autor) parecem-me fantasias de escritores que querem brincar aos deuses ou a aprendizes de feiticeiro. Não me convencem.

12 – E quanto à inspiração, acreditas nela? Ou fazes um trabalho mais estruturado e calculista?

VLC – Acredito no trabalho, no calculismo do autor; acredito numa qualidade fraudulenta da arte em geral e da literatura em particular, que leva o escritor a iludir o leitor, a persuadi-lo daquilo que lhe interessa a ele, escritor. Não se pode passar sem essa qualidade fraudulenta e calculista. O próprio leitor está consciente disso e suspende, momentaneamente, a incredulidade. Por essa razão, não acredito na inspiração, que não passa de uma fantasia romântica: o poeta a quem os deuses comunicam coisas inefáveis e sobrenaturais, como Homero, Vergílio ou Camões evocando a Musa, como se não tivessem sido eles a fazer tudo.

13 – A população portuguesa apresenta índices muito baixos de leitura, em comparação com a generalidade dos países europeus. Nas escolas os professores deparam com o facto de apenas uma ínfima percentagem de alunos ter hábitos de leitura, normalmente ganhos em casa. O que te parece estar na origem deste pouco interesse pela leitura?

VLC – O atraso da educação no nosso país, quando comparado com outros, é estrutural. Muitos séculos de analfabetismo real, e as últimas décadas de analfabetismo funcional, não disseminaram o hábito de ler. Quem não lê, encontra sempre motivos para continuar a não ler: falta de tempo, cansaço, livros caros, crise económica que leva a que se privilegie bens essenciais como água e pão e algo que vestir. Quem lê, não desperdiça qualquer oportunidade para o fazer, e até preferirá comer menos ou comprar roupas mais baratas do que deixar de ler. Conclusão: o hábito e o gosto têm uma inércia própria que os reforça e é difícil romper círculos viciosos ou virtuosos.

14 – Existem planos de incentivo à leitura nas escolas, mas são poucos os alunos que mudam a sua atitude. Que te parece devia ser feito para levar as crianças e os jovens a ganhar hábitos de leitura, que pudessem continuar enquanto adultos? 

VLC – Não conheço outra fórmula que não seja continuar a investir na educação da população, o que aliás tem vindo a ser feito. Trata-se de lançar sementes à terra, sabendo contudo que nem todas germinarão. Talvez ainda sejam necessárias algumas gerações para recuperar um atraso que não é conjuntural mas estrutural. Se tenho como certo que o investimento na educação colhe frutos, embora lentos, também é certo que a leitura não pode competir com os meios áudio-visuais: a imagem e o som são siderantes, hipnóticos, fusionais, exercem uma influência imediata, enquanto a palavra escrita, sendo abstracta, tem de ser digerida, implica disponibilidade mental, esforço até.

15 – Deverá um escritor ter um papel pedagógico e social além do de criador de cultura? Deverá a sua escrita estar automaticamente imbuída dum caráter interventivo que torne a leitura mais do que um ato lúdico ou de gozo estético? Como te situas, enquanto escritor, perante estes aspetos?

VLC – Acho que a escrita literária é, acima de tudo, um acto estético e um acto de conhecimento, que preenchem aquelas áreas de fantasia e necessidade intelectual que se encontram em qualquer civilização – talvez mesmo, primordialmente, em qualquer agrupamento humano. Mas como tudo o que é humano tem uma dimensão social e política, e se diz por aí que tudo é política, não admira que a literatura seja convidada ou mesmo obrigada a releituras sócio-políticas. Quando um escritor tem a ambição de sondar a condição humana, é logo recrutado como comentador ou agente político. Acho que, não sendo a intervenção social a missão fundadora da literatura, é uma consequência inevitável, que eu, pessoalmente, não procuro concretizar. Gosto mais da ideia de uma obra literária que, mesmo quando chega a reflectir o ar do tempo, se realiza como proposta estética ou produz conhecimento. 

16 – O que é que desejas para o teu futuro enquanto escritor? O que esperas vir a dar aos teus leitores e o que esperas vir a receber, deles e do mundo literário em geral? Não fará sentido ter um projeto delineado a rigor, mas terás certamente uma ideia daquilo que gostarias viesse a suceder para te sentires realizado, se é essa a expressão mais adequada.

VLC – Retomando a metáfora de uma resposta anterior, não espero mais do que tentar salvar-me do mar gelado da existência saltando de placa de gelo em placa de gelo, isto é, de livro em livro, a caminho da terra firme, que pode ser a indefinível e impossível felicidade, sabendo, contudo, que a probabilidade de soçobrar nas águas é maior. Sei que isto é vago, mas é das coisas vagas (como o futuro) que se vão esboçando e firmando as ideias, os actos e as obras. O que gostaria que sucedesse? Que não me repetisse, que não me limitasse a escrever os meus próprios estados de espírito mas fosse capaz de escrever sobre o que me é alheio e estranho. O que espero do estimável público? Que o acaso ou a curiosidade coloque nas suas mãos um livro meu e, caso o leia, não dê o seu tempo por inteiramente perdido.

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